PALAVRAS INICIAIS...
As partes de um texto – Introdução, desenvolvimento e conclusão -, conforme o que é ensinado, em relação a textos dissertativo-argumentativos[1], independente do gênero textual explorado – sermão, artigo científico, monografia, resenha crítica, geralmente, são construídos a partir de aspectos comuns: ao passo que na introdução, a proposta é a apresentação geral em relação ao assunto que será exposto, a linha de pensamento adotada associada às estratégias utilizadas pela autoria do texto, por sua vez, no desenvolvimento defender-se-á a ideia ora apresentada [na introdução]. Contudo, é na conclusão (ou considerações finais[2]) que são explicitadas as impressões, os resultados de uma busca, a comprovação (ou não) da ideia apresentada na parte inicial do texto.
Pautando-se, na tentativa de promover uma melhor compreensão das funções de cada uma das partes, anteriormente citadas, a proposta aqui consistirá em oferecer ao leitor subsídios que favoreçam a identificação da estrutura e dos marcadores textuais próprios das partes aqui estudadas, ainda que, não há a intencionalidade de esgotamento das discussões em relação ao objeto de estudo aqui apresentado.
1. INTRODUÇÃO
Em linhas gerais, a introdução de um texto, independente da extensão, situa sobre o tema, apresenta a tese e o ponto de vista defendido pelo autor.
Na leitura dos trechos de textos a seguir, teremos subsídios e referenciais para a nossa breve análise.
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A maneira como o homem vive e se organiza em relação direta com o modo como nós encaramos o tempo. A importância que damos ao passado, ao presente e ao futuro é fundamental para a concepção de nossa sociedade e do mundo em que vivemos.
Candidato da FUVEST. Vestibular 2004.
No parágrafo acima, o autor faz uma DECLARAÇÃO, com caráter reflexivo. Em seguida, ele apresenta uma tese que postula a quem ler o trecho agir em prol do cumprimento do mesmo (dar importância) e, consequentemente, haverá uma mudança de estado (representado pela forma do verbo ser “é”). Por fim, ele (o autor) procura envolver o leitor a partir do uso pronominal (nós).
É notório ressaltar que, em alguns casos, a tese formulada apresenta subdivisões, como no exemplo a seguir:
“Ultimamente, o Brasil tem vivenciado uma de suas piores crises sociopolíticas. O descontentamento da população é geral. Isso é devido a dois motivos básicos: uma política voltada aos interesses de uma minoria e as enormes diferenças sociais. Cada vez mais, essa situação se degenera, levando os brasileiros a se envergonharem de sua própria pátria.”
Vale ressaltar que, no caso de texto dissertativo-argumentativo, na introdução, quando explicitar as subdivisões da tese, a mesma quantidade de subdivisões apresentadas serão convertidas em capítulos no desenvolvimento do texto. No caso do texto acima, cada uma das subdivisões dará origem a um capítulo específico para direcionamento e ampliação da argumentação.
TEXTO II
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Adelaine de Paula Martins – aluna (3º Ano – Ensino Médio)
TEXTO III
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Daniela Alves – aluna (3º Ano – Ensino Médio)
TEXTO IV
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Candidato da FUVEST. Vestibular 2004.
TEXTO V
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Walter Ceneviva. Folha de São Paulo. 06/07/1999.
Nos trechos acima, são apresentados itens comum a uma introdução de um texto dissertativo-argumentativo, valendo ressaltar que, nesta parte do texto elas poderão aparecer simultaneamente, ou ainda, apenas uma, desde que favoreçam a expressão a que se propõe esta parte inicial do texto
2. DESENVOLVIMENTO
No desenvolvimento defende-se o ponto de vista adorado pela autoria do texto.
A qualidade do desenvolvimento, por sua vez, é definida a partir da observância quanto à escolha adotada pelo autor, a consistência e a organização dos argumentos apresentados ao longo do texto.
Nesse ínterim, é importante ressaltar a importância do repertório vocabular variado e conhecimento acerca dos recursos linguísticos, sintáticos e estilísticos, a fim de garantir ao escritor a credibilidade quanto a escrita, assim como ao leitor a satisfação em relação ao texto com o qual estabelece contato[3].
Outro aspecto a ser considerado é a definição quanto ao número de parágrafos (ou laudas, no caso do texto científico) do desenvolvimento. Tal aspecto definir-se-á quando considera-se a complexidade ou a concisão do argumento ora utilizado.
Como a finalidade deste tratado não é o esgotamento das possibilidades, apresentaremos através de trechos selecionados alguns dos tipos de parágrafos comuns ao desenvolvimento da produção textual:
TEXTO I
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É proibido fazer silêncio. Folha de São Paulo. 13/10/2003. Folhateen.
Neste parágrafo, o autor explica o perfil do responsável por abuso sexual de menores.
Além disso, devo acrescer que:
a) Apesar de ser curto o trecho descrito, o autor utiliza argumentação clara e concisa;
b) Para a construção da argumentação, utiliza-se da vírgula para o cumprimento do papel de enumeração, a conjunção aditiva “e”, e a fim de evitar a repetição lexical, mostrou a variação do repertório vocabular.
Esses aspectos supracitados demonstram que o parágrafo foi construído por enumeração.
TEXTO II
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Mulheres fumantes. Editorial da Folha de São Paulo de 14/08/2003.
Algumas considerações:
a) O texto foi publicado em um editorial de jornal. Nesta seção do texto jornalístico, o objetivo é apresentar uma reflexão acerca de uma situação-problema;
b) As estratégias predominantes na construção desse parágrafo foram a utilização de dados estatísticos para subsidiar a comparação promovida pelo autor. Além disso, explora os aspectos de gênero e faixa etária.
TEXTO III
Apesar de o problema da fome no mundo ter piorado significativamente na segunda metade da década de 90, o Brasil conseguiu reduzir o número de subnutridos. Essa notícia, que consta do mais recente relatório da FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação), reforça a convicção de que o caminho está em desenvolver – e manter – programas sociais eficientes. Certamente o crescimento econômico com inclusão social é a melhor receita contra a miséria – mas, até que ele se consolide e dê resultados, fontes políticas compensatórias são necessárias.
Em termos globais, a situação sofreu notável deteriorização. Ao longo da primeira metade da década, o número de famintos havia sido reduzido em 37 milhões. Na segunda metade, os subnutridos sofreram um incremento de 18 milhões. No Brasil, porém, o número absoluto de famintos caiu de 18,6 milhões em 1990-1992 para 15,6 milhões em 1999-2001. O resultado ainda é lastimável, pois indica que 9% da população não consegue satisfazer suas necessidades alimentares básicas, mas pelo menos estamos na boa trilha.
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O Fome Zero, do Governo Luiz Inácio Lula da Silva, que, mais se tornou uma marca do que um programa, mereceu loas da organização, mas pela intenção, já que o relatório só inclui dados até 2001. Os números de Lula, que começou o governo com forte retração econômica (o que sugere conseqüências sociais), ainda estão por surgir para que possam ser analisados.
(Folha de São Paulo. 29/11/2003).
O texto supracitado, além de contrastar, compara, enumera dados, cita, exemplifica e faz alusão de causa e consequência.
a) Os recursos lingüísticos utilizados também garantem progressão das idéias, temporal e de comportamento.
b) O uso do verbo ser, em suas formas, o uso de pronomes a fim de evitar a repetição lexical, o uso de advérbios e da mudança de categoria gramatical (como no caso de “que”, ora conjunção, ora pronome relativo).
TEXTO IV
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Anna Verônica Mautner. Felicidade. Folha de São Paulo. 22/05/2003.
Quando se define algo, a preocupação é a apresentação de uma explicação que facilite a compreensão sobre determinado conceito e, no caso desse texto, alguns marcadores facilitam esse processo:
a) A utilização do verbo ser (na forma de é) indicando certeza acerca do estado da felicidade;
b) O uso do adjetivo infinita, mostrando uma das características da felicidade sob o ponto de vista da autoria da definição.
TEXTO V
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Candidato da FUVEST. www.fuvest.br/vest2004/bestred/521861.stm
Além da tentativa de explicar o presente a partir de fatos do passado, a alusão histórica serve de pressuposto para comparações com a realidade atual.
Para isso, no trecho acima, o escritor toma como parâmetro:
a) Datas referenciais (476, 1989);
b) Relaciona as datas a partir da interpretação do conceito de tempo;
c) Como referenciais textuais, o autor utiliza as contrações (em + o; a + o), a preposição “em”, os pronomes “estes” e “que”, que garantem ao texto a ideia de envolvimento e proximidade em relação a quem fala.
TEXTO VI
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Retrato da violência. Editorial da Folha de São Paulo. 24/12/2004.
Algumas considerações:
a) O autor começa o trecho expressando-se a partir de um tema específico – a morte no Brasil;
b) Em meio ainda à referida especificação, ele delimita-a (morte violenta);
c) Utiliza-se do recurso lúdico a expectativa, a partir dos vocábulos reveladores e preocupantes;
d) Em seguida, inicia a argumentação com a apresentação com um dado estatístico;
e) Apresenta uma comparação a partir de um desdobramento dos dados.
Acrescenta-se ainda às considerações supracitadas, uma observação ao 3º parágrafo do texto III, o qual é construído com base em relação de causa e consequência.
TEXTO VII
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Tenório, que lançará o livro Médicos são os profissionais que mais se maltratam (ainda sem editora definida), explica que o excesso de trabalho e pressões constantes da rotina médica provocam estresse, má alimentação, sedentarismo, poucas horas de sono. “Desde jovens, convivemos com a dor e a morte, que é inevitável. Isso faz com o médico seja um perdedor em tese”, analisa.
Ciência Hoje, nº 135.
O autor aqui se empenha em comprovar a tese de que “no hospital, está uma das classes que menos cuida de sua própria saúde: os médicos”. Para isso, vale-se de dois parágrafos: no primeiro, cita as palavras de uma autoridade no assunto (justificada pelas credenciais: pesquisador, diretor da UERJ, presidente do Sindicato dos Médicos e autor de um livro sobre a saúde dos médicos) enquanto, no segundo, apresenta o testemunho desse médico.
De acordo com o reconhecimento social ou intelectual da pessoa que é citada ou que dá testemunho, o argumento poderá ter maior ou menor força. No caso do texto analisado, os títulos atribuídos ao médico não deixam dúvidas sobre sua capacidade de opinar com propriedade sobre o assunto.
As transcrições de trechos de obras ou de falas / entrevistas devem ser literais e feitas entre aspas (no caso de texto manuscrito), destacada do texto (quando a citação for superior a três linhas) ou em itálico (quando o número de linhas for superior a três, mantendo-a incorporada ao texto).
Quando realizadas em discurso indireto, deve-se tomar o cuidado para manter fidelidade às ideias do autor.
3. CONCLUSÃO
A primeira ideia em relação à conclusão de um texto gira em torno de esta parte reafirmar o que foi apresentado na introdução, o que ora pode ser comprovado ou não.
Pautando-se nessa condicional, a conclusão desenvolver-se-á a partir da intencionalidade e dos objetivos atingidos pelo autor do texto, conforme o que veremos a seguir:
TEXTO I
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José Anselmo Pinotti. Folha de são Paulo. 25/11/2004.
O autor faz uma síntese dos aspectos que abordou no desenvolvimento do texto, especialmente os aspectos científico e religioso, os quais, provavelmente foram contrapostos em relação ao assunto tratado [o aborto anencefálico]. Entretanto, o autor não o faz a reapresentação dos argumentos por inteiro, pois isso tornaria o texto repetitivo.
Como verifica-se, a retomada dá-se de forma sintética, evitando-se assim a repetição palavras e frases.
Embora não seja obrigatório, quando se trata de redação não científica, é comum haver um elemento de coesão entre a conclusão e as demais partes do texto, o qual pode ficar subentendido, como ocorreu no texto referenciado.
Entre esses termos de coesão estão assim, portanto, desse modo, diante disso, nesse sentido, entre outros.
TEXTO II
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www.fuvest.br/vest2004/bestred/500313.stm
Nesse tipo (ou recurso) de conclusão, finaliza-se com uma palavra ou frase que tenha valor mais abrangente, isto é, apresenta-se uma ideia capaz de reunir todos os aspectos abordados anteriormente. A redação ao começar com “as concepções...” prescreve a ideia de foram trabalhadas mais de uma concepção, as quais foram contrapostas a partir de uma reflexão e, possivelmente, o autor optou por considerar um dos conceitos ou ainda, assumir ou apresentar sua consideração em relação ao assunto (como ocorre no texto acima – o II).
Outro item a considerar é a presença do termo conclusivo que indica direcionamento (por isso) associado a termo de apresentação (assim), mostrando uma sequência de ideias (relação de progressividade).
TEXTO III
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Ruben Naves. A discussão vai além da faixa etária.
Folha de São Paulo, 03/07/2004.
Esse tipo de escrita deve ser pautado em propostas concretas, evitando-se sugestões vagas, o que garantirá maior persuasão ao texto como um todo.
No texto científico, no geral, quando há construções textuais dessa natureza, uma das intenções implícitas na proposta é a continuidade investigativa em relação ao assunto proposto no trabalho apresentado.
TEXTO IV
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Amaury Castanho. Focas sim, crianças não.
Folha de São Paulo, 18/12/2004.
No texto de que faz parte a conclusão acima, por exemplo, o autor já se colocara contra a iniciativa do governo de por em discussão a legislação vigente sobre o aborto. A pergunta tem, portanto, a função de reforçar o ponto de vista do autor e estimular a questionar-se.
TEXTO V
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Agnelo de Carvalho Pacheco. Redação no vestibular.
São Paulo: Texto & Ofício. p. 102.
No texto, no qual foi discutida a situação de miséria da criança brasileira, há duas surpresas na conclusão. A primeira em “colloridas”, que faz uma clara referência irônica ao então presidente Fernando Collor de Mello. Depois, na criativa citação de um verso de Olavo Bilac, muito adequado ao contexto.
Na conclusão-surpresa, além das citações de escritores, filósofos, estadistas, compositores e outros, pode haver também uma pequena história, uma piada, um pensamento que ilustre tudo o que desenvolveu ou atribua novos sentidos ao texto.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao longo deste texto, a intencionalidade pautou-se em mostrar algumas das estratégias de construção das partes do texto, a saber, introdução, desenvolvimento e conclusão.
A citação das referidas estratégias está associada a verificação das dificuldades dos alunos, no tocante à escrita de textos, a partir das séries finais do Ensino Fundamental e estendendo-se ao âmbito acadêmico.
Espero, a partir dessa construção, ter possibilitado o esclarecimento de dúvidas assim como subsídios que favoreçam a prática da escrita.
BIBLIOGRÁFIA BÁSICA
ANTUNES, Irandé. Aula de português: encontro e interação. São Paulo: Parábola Editorial, 2003.
ANTUNES, Irandé. Língua, texto e ensino: outra escola é possível. São Paulo: Parábola Editorial, 2009.
CEREJA, Willain Roberto; MAGALHÃES, Thereza Cochar. Texto e interação: uma proposta para a produção textual a partir de gêneros e projetos. São Paulo: Atual, 2005.
FIORIN, José Luiz; SAVIOLI, Francisco Platão. Para entender o texto: leitura e redação. 17ed. São Paulo: Ática, 2008.
MONTEIRO, Stéfano Couto. A escrita do artigo científico. Guaratinga, Ba: Faculdades Montenegro (texto mímeo), 2009.
[1] Em virtude da confusão conceitual em torno da nomenclatura “dissertativo-argumentativo”, apresento a seguinte distinção, sendo que dissertar refere-se ao discurso explicativo, com o objetivo de explorar o assunto, contudo, sem tomar um devido posicionamento ou expressão de opinião.
Ao contrário, argumentar implica em persuadir ou convencer um público acerca de uma tese ou proposição.
[2] A opção pelo uso de Considerações finais em detrimento a Conclusão demonstra o caráter que não ter a intencionalidade de esgotar sobre a discussão do assunto, mas demonstrar que o texto ora construído é resultado de uma visão direcionada.
[3] No caso do texto científico, além das considerações supracitadas, deve-se levar em consideração aspectos da textualidade como a originalidade, as contribuições em relação ao conhecimento científico (às futuras pesquisas) e as estratégias que são adotadas pela autoria no contexto de construção da escrita.